quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Playtime - Tempo de diversão" (1967), de Jacques Tati



  
Descendente de uma família nobre russa, o diretor, produtor, roteirista e ator francês Jacques Tati (batizado Tatischeff) teve um avô General do Exército Imperial e um pai que fez fortuna como empresário no ramo das artes plásticas. Não desejando seguir semelhantes carreiras, seu principal interesse, por muito tempo, foi o esporte. Praticou boxe e rugby, tendo até cogitado se profissionalizar neste último. Porém, ao estudar artes e engenharia na academia militar do Liceu de Saint Germain-en-laye, descobriu uma habilidade insólita que a muitos agradou: a de imitar seus colegas estudantes, atletas e diversas outras pessoas. Com seu talento mimético, viu que tinha aptidão para o humor, e resolveu ingressar na indústria do entretenimento.
Após uma estreia composta por performances diversificadas (teatrais, circenses etc), foi convidado na década de 30 para desempenhar papéis humorísticos em curtas-metragens franceses, carreira que precisou ser interrompida pelo advento da 2ª Guerra Mundial. Passada a guerra, retomou aquela que descobrira como a sua grande vocação, ao participar de outros curtas e logo começar a produzir os seus próprios filmes.
Tati foi, sem sombra de dúvida, um arauto da ideia de se filmar o que deseja, e como deseja; liberdade era acima de tudo sua bússola, e talvez por isso não tenha tido capital para fazer tantos filmes. Deixou-nos um legado de apenas dois curtas-metragens de ficção, cinco longas para o cinema e um para a TV, e um documentário em curta-metragem (resgatado, editado e finalizado por sua filha, e lançado em 2002). Destes longas-metragens, o que mais se destacou foi o quarto, “Playtime – Tempo de diversão” (“Playtime”), de 1967.
Trata-se do filme mais caro de Tati – e o mais caro da história do cinema francês até aquele momento –, tendo custado em torno de $3.000.000,00, pois o diretor construiu uma verdadeira cidade como cenário, incluindo hospital, hotel, restaurante, casas e aeroporto, sem contar com as demais despesas de produção, o que o levou a uma falência incapaz de ser remediada com seu filme seguinte (“As aventuras do Sr. Hulot no tráfego louco”, de 1971), e que só pôde sê-lo finalmente com a quitação de seus débitos por parte de um empresário e distribuidor francês.
Feito em completo alheamento à nouvelle vague que estourava como movimento na França da época, o filme representa o caráter autoral do cinema levado a efeito pelo realizador francês que, tal qual Louis Malle, Henri-Georges Clouzot, Robert Bresson e outros, não quis se filiar à vanguarda, mas transmitir sua própria mensagem de outra forma.
O processo de decupagem de “Playtime” optou por planos bem longos, cuja persistência visual logo se revela uma eficaz forma de conferir um caráter descritivo ao filme, mas sem uma tomada de posição. O roteiro, que traz pouquíssimas falas, dá maior fluidez visual à película. Neste bastião, são escancarados os costumes burgueses, sobretudo o esnobismo dos ricos, a moda e o pós-modernismo flagrante, desde a arquitetura dos imóveis da cidade – interna e externa – até bailes jazzísticos em restaurantes. A apoteótica sequência do jantar num requintado restaurante recém-inaugurado, que aos poucos vai sendo destruído, é exatamente uma analogia à fachada de uma sociedade de mascarados, que é finalmente deflagrada como tal e que terá de ruir também. Mas nada disso é denso; ao revés, a mensagem é transmitida com uma leveza espetacular.


Acresça-se que o fato de os personagens serem, em sua maioria, turistas que falam inglês – e, metalinguisticamente, o próprio título original do filme ser em inglês e não em francês – traduz a ideia de se retratar os efeitos da globalização, a nação como não mais sendo terreno exclusivo de seu próprio povo, mas uma miscelânea cultural.
Vale ressaltar que, não obstante a linearidade da narrativa, não parece estar a mesma em momento algum caminhando rumo a um sentido e a um fechamento. O diretor filmou poucas e longas sequências em diferentes ambientes, fazendo um apanhado comportamental da Paris dos anos 60. Entrementes, um sujeito ora surge, ora desaparece, ora ressurge, sendo um elemento constante e que pode ser classificado como o mais próximo de um protagonista.
Este sujeito é o personagem que consagrou Tati, seu alter-ego Sr. Hulot (interpretado pelo próprio diretor), que entra em cena como um desajustado, incapaz de se integrar aos novos costumes e à debilidade comunicacional instaurada pelo individualismo; um verdadeiro “outsider”, cujas trapalhadas representam exatamente sua falta de lugar num mundo em transformação, o qual não consegue acompanhar ou compreender. O estilo de comédia aqui utilizado (a pantomima cinematográfica) é um resgate e uma homenagem a atores do período mudo, os quais Tati cresceu admirando, como Max Linder, Buster Keaton e Charles Chaplin. Monsieur Hulot já fora personagem dos dois longas-metragens anteriores de Tati, “As férias do Sr. Hulot” (1953) e “Meu tio” (1958), e ainda viria a sê-lo no filme seguinte, “As aventuras do Sr. Hulot no tráfego louco” (1971).



A obra é assaz influente, tendo sido utilizada como referência para a criação de “Mr. Bean”, série de televisão britânica que leva o mesmo nome, ou mesmo para filmes como “Um convidado muito trapalhão” (1968), de Blake Edwards, que traz Peter Sellers como um estrangeiro, convidado acidentalmente para um jantar, que vai aos poucos causando desordens na casa de magnatas da indústria cinematográfica com sua ingenuidade.
Aos interessados no gênero comédia, este filme é uma oportunidade e tanto de saber de onde vêm muitos dos truques hoje sacramentados na arte de fazer rir, e quais as inspirações de muitos de nossos humoristas favoritos do último quartel do séc. XX para cá.

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